Aos Mestres com Carinho
Professor Paulo Tilelli
Estas homenagens são dedicadas ao Professor Paulo Tilelli e a Profª. Serafina do Amaral.
O Professor Paulo Tilelli dedicou-se á joalheria desde os seus 14 anos quando foi contratado como aprendiz em uma oficina de jóias. Durante 16 anos trabalhou nesta oficina, tornando-se gerente geral. Após sua graduação em engenharia eletrônica, iniciou as atividades de sua pequena fábrica de jóias, onde em algumas noites ministrava aulas de joalheria, no bairro de Perdizes. Fui, por indicação de um amigo fazer aulas, com o professor Tilelli. Suas aulas eram essencialmente técnicas, com muita informação sobre química, física e matemática aplicada à joalheria. Mas também contava fatos cotidianos de sua vida como profissional, nos relatando como atuar de forma digna no ramo. Em 1980 conclui, o curso. Suas aulas eram bastante aprofundadas e com ele, tive acesso à pesquisa de vários materiais, pude entender o comportamento dos metais, temperaturas de fusão, ligas e soldas, e tantas outras informações. Este pequeno texto é uma forma de agradecimento, ao rico ensinamento por ele repassado, a sua amizade incondicional, e também agradecer sua esposa Ivete, que após seu falecimento doou para a biblioteca da escola seus apontamentos, pesquisa e livros de joalheria.
Mais que ensinamentos de joalheria o Professor Tilelli, deixou-nos lições de ética, do dever de ser honesto na pesagem dos materiais e na titulagem da jóia produzida. Seu rigor em encarar a joalheria como um ofício grandioso, me fez entender que arte de fazer jóias, transforma materiais e pessoas, e isto está além do tempo, nisto reside o mistério desta arte milenar. “Professor Paulo Tilelli, onde você estiver receba meus agradecimentos”.
Professora Serafina do Amaral
Conheci a professora Serafina do Amaral em uma manhã de verão, e na sala de sua casa ela me recebeu gentilmente. Fui procurá-la para ter aulas de história da joalheria. Já aposentada aos setenta e dois anos, recebia-nos como sempre; com um impecável bom humor e xícaras de café quente. Chamava cada um por seu nome e de sua memória privilegiada brotavam histórias da joalheria, de príncipes, de princesas, de situações envolvendo jóias, gemas, tesouros.
Encantava-nos como se encanta crianças com estórias para dormir.
Envolvia-nos a todos. Não gostava de ministrar aulas para muitos alunos, e ainda exigente realizava uma seleção dos futuros. Mas também esbanjava gentilezas, para um reservava um comentário, para outro uma conversa, para todos tinha um afeto particular e único. Destas gentilezas com todos, fez amigos e como um imã ao longo de sua vida arregimentou uma legião de admiradores.
Iniciou seus estudos buscando graduar-se em medicina, e não satisfeita com este curso, transferiu-se para o curso de letras. Após sua graduação dedicou-se ‘a pesquisa da história da indumentária e ministrou aulas durante vinte anos na ECA-USP. Realizou muitas viagens ao longo de sua vida, e sempre priorizava os museus que informassem algo sobre roupas, costumes, e os lugares que tivessem algo sobre a cultura do país que estava visitando. Com o passar do tempo a Professora Serafina, começou a pesquisar sobre jóias e seu interesse foi se aprofundando até que resolveu fazer um curso de joalheria.
Posteriormente foi contratada pela secretaria da cultura do estado de SP para fazer o levantamento de todas as peças de joalheria dos órgãos governamentais.
Foi casada com Dr. João do Amaral, advogado e juiz, deste casamento nasceu Ana.
Em um dia chuvoso, Professora Serafina me ligou e pediu que eu a visitasse, sua voz estava fraca e combalida. Incumbiu-me de dar continuidade ao “seu” dicionário de joalheria. Na realidade deixou-me uma herança cultural, com sua coleção com três mil slides, livros, recortes de jornais e revistas, enfim todo seu material didático. Neste dia saí de sua casa bastante triste.Uma semana depois recebi um telefonema, avisando do falecimento da professora. Um ícone da joalheria tinha sucumbido. Faleceu placidamente em uma tarde fria do rigoroso inverno da cidade. Fecharam-se para sempre seus olhos, calou-se sua voz, mas legou a todos que a conheceram um amor incomensurável ao mundo dos adornos.
